A alguns anos ouvi Maria Bethânia
falar em um
show no qual ela convidava as cantoras Alcione, Belô Velloso, Jussara Silveira e
Vânia Abreu: "O Nélson Motta diz que o Brasil é o país das cantoras, e eu
concordo com ele". Eu concordo com o Nélson e com a Bethânia.
A música brasileira até o final
da década de 80 não tinha tanto compromisso com paradas de sucesso e vendagens de
determinado artista ou moda, e isso propiciou que nos tornássemos o único país onde
forças brutas como Clementina de Jesus e Tetê Espíndola conseguem
se destacar com tamanho brilhantismo e notoriedade. É impensável duas cantoras
desse tipo fazendo sucesso nos Estados Unidos, por exemplo. Muita gente adora a música
americana. Particularmente prefiro milhões de vezes um bom sambinha de
Geraldo Pereira ou Noel Rosa a qualquer standard de Cole Porter, e quando escuto as cantoras americanas de maior sucesso dos últimos anos sempre tenho a sensação de que
elas seguem uma cartilha de canto, uma obrigação de demonstrar
virtuosismo e potência vocal o tempo inteiro, como que para provar que são
cantoras de verdade. Não conhecem a suavidade, a sutileza, cantam o tempo
inteiro a plenos pulmões, chegando uma hora que o estilo pessoal se dilui,
ficando
todas com a mesma “cara”. Claro que existem exceções, como Billie Holiday,
Janis Joplin, Tina Turner, Nina Simone, Ella Fitzgerald ou Sarah Voughan,
definitivamente grandes e inimitáveis cantoras, mas só o Brasil produz tantos
contrastes entre o estilo de suas principais vozes: Gal Costa, Elis Regina, Nana
Caymmi, Maria Bethânia, Simone, Nara Leão, etc. não se parecem em
nada umas com as outras. E o mais interessante é notar que estudando a fundo
suas discografias, se encontram muitas canções em comum, mas com interpretações
totalmente diversas. Nossas cantoras refletem a pluralidade do nosso país, o
contraste entre o sofisticado e o primitivo, o urbano e o selvagem, e deveriam
ser motivos de orgulho nacional.
A paixão por cantoras surgiu ainda na infância, literalmente:
queria casar com a Alcione e com a Joanna (!), e era completamente fissurado
pela Rita Lee (ainda sou). Somando-se a estas estava minha admiração por Gal
Costa, Maria Bethânia, Elis Regina, Simone, Zizi Possi, as cantoras que mais
ouvi no rádio quando garoto. Na adolescência descobri mais profundamente o
trabalho de Gal Costa, a fase tropicalista, os anos 70, seus antigos sucessos, e
a admiração por cantoras se adensou com ela, que ainda é
minha cantora favorita. Já adulto descobri as pioneiras, aquelas cantoras que
começaram essa história toda. O que antes era apenas uma mulher fantasiada de
baiana com um cacho de bananas na cabeça e uma jurada mal-humorada do programa
de Sílvio Santos, se transformaram em Carmen Miranda e Aracy de Almeida, e a
elas se juntaram Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Ademilde Fonseca, Dolores
Duran, Linda e Dircinha Batista, Araci Cortes, Carmen Costa, Marília Baptista e
muitas outras.
No final da década de 80 começou a derrocada da programação
radiofônica. Quase nada do que se escuta no rádio desde esse período tem sido
animador, salvo raras excessões, como Marisa Monte ou Adriana Calcanhoto. Foi a partir daí que começou meu interesse pela
MPB mais alternativa, que não alcança as paradas de sucesso, mas que tem
proporcionado os melhores momentos da música brasileira dos últimos anos. Foi quando conheci
Cássia Eller (que só veio a se tornar um grande sucesso anos depois de gravar o
primeiro disco), Ná Ozzetti,
Jussara Silveira, Paula Lima, Mônica Salmaso, Rita Ribeiro, Fernanda Porto,
Rebeca Matta, descobertas que me fazem ter certeza que a MPB vai muito
bem. O que vai mal é a cínica, preguiçosa, ganaciosa, mercenária, indústria de entretenimento nacional, que só aposta no
que pode haver de pior, mas que tem retorno financeiro rápido e fácil.
A MPB não só merece um resgate de suas raízes, mas a
exposição de seus novos talentos, e as cantoras fazem parte
disso.
O site relaciona as intérpretes por fases, e cita as artistas de maior
relevância de cada período, tentando ser o mais imparcial possível, independendo sucesso, qualidade ou gosto pessoal
na escolha dos verbetes. As fases são as seguintes:
1902 a 1916 - abrange o início da MPB, quando começam as gravações no Brasil. A
principal cantora é a vedete Pepa Delgado.
1917 a 1929 - período em que os principais gêneros musicais nacionais se
estruturam, e onde termina a era da gravação mecânica. Araci Cortes é o principal nome, primeira mulher a ser reconhecida como cantora.
1930 a 1938 - primeira fase da Era de Ouro. Carmen Miranda, Aracy de Almeida,
Aurora Miranda, Dalva de Oliveira, Dircinha Batista, Linda Batista, Marília
Batista, Odette Amaral são as principais representantes.
1939 a 1944 - segunda fase da Era de Ouro, período que abrange a Segunda Guerra
Mundial. As principais cantoras são Ademilde Fonseca, Carmélia Alves, Carmen
Costa, Emilinha Borba, Marlene e Isaura Garcia.
1945 a 1956 - Fim da Época de Ouro, quando surgem as modas do baião, do samba-fossa, do bolero e também surgem os pioneiros da bossa-nova. Ângela Maria, Nora Ney, Dóris Monteiro, Dolores Duran, Elizeth Cardoso, Maysa e Sílvia Telles são os principais nomes.
1957 a 1967 - período que abrange a Bossa-Nova, a Jovem Guarda e os Festivais de Música. Se destacam: Nara Leão, Cely Campello, Wanderléa, Elza Soares, Clementina de Jesus, Elis Regina, Nana Caymmi, Clara Nunes, Maria Bethânia e Gal Costa.
1968 a 1977 - período que veio logo após o movimento tropicalista, quando termina a fissura que existia entre a chamada MPB e os outros gêneros, como samba, rock, soul music, música regional. Se destacam Rita Lee, Baby Consuelo, Beth Carvalho, Alcione, Simone e Fafá de Belém.
1978 a 1987 - abrange a Vanguarda Paulista e o rock nacional. Se destacam Joanna, Angela RoRo, Marina Lima, Zizi Possi, Elba Ramalho, Tetê Espíndola, Eliete Negreiros, Ná Ozzetti, Vânia Bastos, Paula Toller, Sandra de Sá e Leila Pinheiro.
1988 a 1999 - década de 90. Cantoras mais importantes: Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Cássia Eller, Zélia Dunca, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Luciana Mello, Ana Carolina, Jussara Silveira, Mônica Salmaso, Rita Ribeiro.
2000 a 2005 - últimos anos. Destaques: Fernanda Porto, Ceumar, Paula Lima, Tereza Cristina, Vanessa da Mata, Maria Rita, Pitty.´
É impossível fazer um trabalho completo sobre cantoras do Brasil, muitas ficaram para serem incluídas em breve momento futuro, outras simplesmente não tem material de pesquisa disponível, portanto esse site estará sempre em construção, podendo ser atualizado a qualquer momento.
Doug Carvalho